Se permita viver...
Naquele momento meu olhar
tornou-se mais duro quando ele adentrou o recinto.
Fechei a cara. Desviei o olhar
por baixo das lentes dos meus óculos. Apesar dessa couraça que me protegia, o
meu coração soltava em pulos.
Ele me levantou a cabeça
sustentando-a pelo meu queixo.
- Olá, docinho. Tudo bem com
você? (nele habita o terno e o desprezo. Nele habita a fortaleza e o apego). Estremeci
dos pés à cabeça. Molhei-me sentindo no meu centro o desabamento das águas.
Minha boca entreabriu-se como
quem quer e necessita de alguma coisa...
Me delato constantemente. Mostro o
que realmente sinto. E pressinto o que ele sente. E isso é horrível. Porém, dura e áspera mais do que nunca me afastei
batendo com força o salto dos sapatos no mármore do quarto do motel – Toc-toc-toc...
altiva, soberba, cheia de vontades incontroláveis.
Desejo-o. Temo-o. Sei que ele com
as suas múltiplas faces pode me envolver e colocar por terra todos os meus
planos de afastamento desse lugar que nesse momento não quero habita, esse
lugar de romance e fidelidade.
E sem enrubescer poderia ainda
admirar o seu belo peito cabeludo e cheiroso e suas belas coxas ( um refúgio
delicioso) sabendo-se que ele era mesmo um crápula. Mas por dentro do meu copro
o quente se instalava. O quente me envolvia e já mostrava a nódoa na seda da
calcinha.
Ele me acompanhou até a porta e
me puxou pelo braço. – Ei, precisamos conversar.
Precisamos nos entender, certo?
-Errado, meu caro. Você não me
deve nenhuma explicação pelo seu afastamento e eu não te devo o mínimo de minha
atenção. Fui clara? (despejei sentindo o choro por dentro).
- Mas não é dessa forma que se
resolvem as coisas. Vamos nos entender, não gosto desse gesto violento do fato
de você não querer me ouvir. Vamos tentar uma outra estratégia de...
Nesse exato momento espalmei a
mão em sua cara com a barba recentemente feita a fim de não machucar minha
pele.
Espalmei de raiva. Espalmei com
ódio de mim mesma.
Ele me segurou os punhos e me
deteve mais uma vez com um beijo roçando na minha nuca (sabe que é a minha
fraqueza e usar contra mim esse poder, pois dei de bandeja nas mãos dele). Nesse
momento não tive frases para traduzir o que realmente sentia. A minha
substância vermelha circulava pelas minhas artérias e me descia ligeira pelos
meios. Era quente. Era a realidade aguda e desesperada. Era a sordidez. Era a
estranheza.
E podem me julgar se quiserem. É algo
frívolo que me fecunda e que ele me jorra constantemente. Ele me planta essa
indignidade. Ele me arrebenta.
Fechei os olhos e tentei esquecer
todos os estragos que aquele homem fizera em minha vida. Tanto tempo sem saber
a verdade de seu íntimo. E num momento de eterna felicidade, ele me fala de sua
alma gêmea. Dobrei-me e enrosquei-me sobre meu próprio corpo. E de cócoras
sentia a dor alastrar-se pelas minhas contas, pela minha vagina ainda dolorida
da nossa foda.
Mordi-o até sangrá-lo nos lábios.
Despedacei-o num momento alucinado de desespero.
Misturei o sangue com as lágrimas
que insistiam em cair.
- Seu piranho! Seu filho da puta!
Você não presta! Eu odeio sentir essa atração por você!
E permaneci agachada no meu canto
sombrio. Permaneci ali durante horas, enquanto ele tentava aliviar a dor da mordida
passando a gaze nos lábios carnudos.
Há algumas horas eu havia
concedido a ele a mais bela tarde. O mais belo prazer sem tabu. Dei o meu
umbigo envolto no meu próprio prazer anterior. Enchi o buraquinho do meu umbigo
com o meu orgasmo e dei para ele saborear. E mostrei os dedos pingando, os
dedos cheios de sais, e enfiei-os dentro de sua boca juntamente com a minha língua
num misto delicioso de sabores. Mas o meu umbigo era dele.
Acho que é por isso que eu gozo
tanto. Os fetiches dele são adjetivos qualificativos q viro objeto de seu
desejo. E depois mostrei os meus pés também guilhotinados com um pouco de sangue
do meu finalzinho do meu mênstruo e os dei para chupá-los. Saboreá-los. Do jeito
que ele queria.
E isso me deixa num gozo quase
etéreo. Eu gozo só com a sensação daquela surra de pau nas minhas costas e com
a sensação dos seus doces vícios.
Ele é o único que saboreia o meu
sangue. E me chupa no umbigo cheio do meu próprio gozo.
Antes repelia-o. Antes reprova-o. Até ser rendida por tanto desejo e pelos seus
pedidos doces de ser o meu menino.
Me senti realmente fêmea ao seu
lado. Animalesca. Fêmea atirada e rendida na mão do caçador (não consigo olhar
para ele e pensar em outra coisa, pois essas múltiplas personalidades dele só
me fazem velo como um caçador).
Ao mesmo tempo que minha desconfiança
surge, ele com o seu papinho de querer ser meu menino e mama nas minhas tetas desconstrói
os meus mecanismos de defesas contra ele.
Mas ele sabe que é o meu melhor
gozo. O maior dos meus pecados. Sou ré confessa. E caio numa inebriante
vertigem de desejo. E me calo. E me enrijeço cada vez mais. Ao passo que ele
ainda se deita ao meu lado. Olha-me terno. Alisa-me os cabelos. Enxuga as
minhas lágrimas do gozo sentido por não ter tido a desejada penetração. Me acaricia.
Me chama de gostosa... de xoxotuda gostosa.
E numa couraça dura que me
protege, ainda caio crucificada. Deito-me ali mesmo. E ele me cobre com o seu
corpo e me dissolve por inteira.
E eu gozo. E ele goza. E não tira
a pica de dentro. E me fala baixinho: -
me perdoa. Não me puna. E se movimenta mais para dentro do meu corpo. Me
estoca gostoso. Mete com força, pois sabe que gosto de uma pegada mais
violenta.
Despreze-o pela ação cometida,
mas acometo-me de raiva por recebê-lo dentro de mim.
Ainda.
Talvez um dia eu me repugne. Talvez
um dia o console com força e mais coragem, pois sei que essas tantas
contradições que permito que ele tenha fazem parte desse mistério chamado
Pedro.
É algo profunda, adolescente e
deveras inexplicável.
Nem a distância auto imposta me
trouxe
Estou devastada.

Uau!!!!
ResponderExcluirTexto vivo, intenso, Fabbi.
Muito bom. Escrever é uma prática, um exercício de libertação. Faça sempre! E compartilhe!
Parabéns!!!