"Por que escrevo assim? Muito mais do que um desabafo, uma narrativa de transformação".
Entendo
que é preciso outra escrita para além da já aprendida. [...] Para comunicar
novas preocupações, novos problemas, novos fatos e novos achados é
indispensável uma nova maneira de escrever, que remete as mudanças muito mais
profundas. A esse movimento talvez se pudesse chamar narrar a vida e
literaturizar a ciência (Alves, 2001, p. 29).
Quando
foi pedido que fizéssemos um texto falando sobre a nossa formação (o memorial),
fiquei pensando: falar sobre o que exatamente? Confesso que não me sinto a
vontade para escreve, sempre me pego com medo dos erros de ortográfica, talvez
por sabe da dificuldade que tenho nessa arte. Costumo dizer que sou fruto de
duas coisas: teimosia e força de vontade.
Mas eis que em um encontro
com um amigo, nas trocas feitas em uma mesa de bar em frente ao nosso coração universitário - os dois já formados, mas naquela mesa, voltamos a ser alunos da instituição que nos deu muito - ele também sugeriu a mesma coisa: “escreva sobre
sua formação, fale em um texto o motivo da sua dificuldade na hora de escreve.
Coloque no papel esses medos, vamos ver o que podemos fazer para melhora” e eis
que resolvi me jogar, justamente por entender que o meu papel é exatamente esse
e como diria João Cabral de Melo Neto:
“Escrever é estar no extremo de si mesmo, e quem está assim se
exercendo nessa nudez, a mais nua que há, tem pudor de que outros vejam que
deve haver de esgar, de tiques, de gestos falho, de pouco espetacular na torta
visão de uma alma no pleno estertor de
criar”.
Eu
comecei na escola cedo, na idade correta por assim dizer (risos), mas tive
muita dificuldade no decorre da minha vida escolar, repeti a primeira serie
mais de três vezes, somente consegui “andar” depois que encontrei uma
professora que buscou saber o motivo do meu atraso, lembro-me da professora
Enir com tanto carinho, sei que ela foi responsável por todas as vitórias que
tive na minha formação, foi ela que deu o pontapé inicial. Ela foi responsável
por entende o motivo do minha dificuldade em consegui ir adiante à escola. Tudo
envolvia as dificuldades que tinha em casa, ia para escola com fome e tinha a
ausência da minha mãe que tinha que acompanha meu irmão no hospital.
Meu
irmão teve câncer, a doença se apresentou quando o mesmo tinha quatro anos e eu
sete, foram treze anos de tratamento e nesses trezes anos, quatro foram de
extrema dificuldade. Tive problema na escola e também de socialização. Como
passávamos por extrema dificuldade financeira, precisávamos pedir as sobras da
merenda no fim do dia na mesma escola que eu estudava. Os pais sabendo disso
tinha certo receio (acho eu na minha visão de menina) de deixar seus filhos
brincarem comigo e com os meus irmãos. Engraçado lembra isso, mas agora que me
veio à memória fatos como ficar na porta das casas quando tinha festas de
aniversários esperando que alguém tivesse pena da gente e nos convidasse para
entra (criança sempre quer bolo).
Não
vamos esquecer o tempo que passou!
Quem
pode esquecer o que passou?[i]
Apenas
quando abandonamos os terrenos da ‘história’ e olhamos as micronarrativas
através dos olhos dos seus produtores é que começamos a compreender...
(Sider; Smith, 1997,
p. 11)
O
tempo passou e somente quando essa professora parou para observa o que estava
acontecendo eu deslanchei, mas a minha formação de base foi aquém do que era
devido e justamente por isso tenho extrema dificuldade em escreve. Sou adepta
da tentativa e do acerto, não sou de desisti fácil e justamente por isso eu
consegui chegar até aqui.
Passou
o tempo e dei andamento a minha vida na escola e encontrei o meu destino ou fui
encontrada por ele no ensino médio, quando mais uma vez tive a oportunidade de
conhecer outra professora que mudou a minha vida, minha mãe não queria que
parássemos de estuda para trabalha, mas sendo adolescente era impossível aceita
isso e fui a buscar de oportunidades no mercado do trabalho e por trabalha e
estuda sempre chegava atrasada na sala de aula. Essa professora vendo isso
perguntou o motivo e quando falei à atitude que ela tinha (postura rígida,
respeitando o horário, não repetia os testes dados) mudou.
Até
então eu tinha somente o pensamento de termina o ensino médio e trabalha, mas
depois da pergunta dela: você quer somente isso para sua vida? Não deseja mais?
Comecei a questiona os meus sonhos e eis que perguntei para ela qual era a
formação, que a mesma tinha, pois ela dava aula de filosofia e também de
redação. A resposta foi: sou pedagoga. Foi paixão na mesma hora (risos), pois
fiquei encantada pela personalidade da professora e também com a possiblidade
de trabalha múltipla disciplinas ao mesmo tempo.
O
tempo passou e ao termina o ensino médio, entrei na loucura dos amigos de ficar
um ano parada descansado e eis que o tempo de um ano prorrogou para mais quatro
e quando vi estava trabalhando como costureira e sendo infeliz, pedi demissão
confiando que o meu ensino médio iria me abri outras passagens, acabei foi
dando com a cara na porta literalmente e como nada aparecia e minha mãe
trabalhava como camelo me aconselhou a ganha dinheiro vendendo balas no ônibus,
fui com a cara e a coragem. No primeiro ônibus que peguei fiquei travada, mas
depois fui tendo folego e mandei bem. Nos intervalos das viagens aproveitava
para estuda e tentei o vestibular, passei e foi à felicidade na minha casa,
pois era a primeira nos dois lados da família que tinha conseguido entra e logo
para uma universidade pública.
Ao entra na faculdade de educação logo me
envolvi com o movimento estudantil e talvez seja daí que surgiu o meu
verdadeiro amor pela educação de jovens e adultos. Fazia parte de um movimento chamado
Coletivo Moinho e esse movimentou desenvolvia alguns projetos com adultos em
uma ocupação e comecei a dá aula para mulheres nessa ocupação e me apaixonei. Procurava coisas que me constituísse como pessoa e
que, subjetivamente, me desse prazer e me inspiram a narrar sobre meu percurso
profissional.
Sinto-me como uma vencedora,
que soube aproveita os caminhos que foram se apresentado, olhando para trás e
recuperando minha trajetória vejo uma passagem que me distancia do lugar onde
nasci, observo que já percorri muita coisa, conheci pessoas, fiz laços
afetivos, deixei marcas e personagens que foram se constituindo durante esse
trajeto. Essa trilha percorrida que, inicialmente foi em decorrência da minha
mãe e das professoras que passaram pela minha vida, foi também fruto das minhas
necessidades pessoais, que em busca de desafios, acabaram se transformando em
novas conquistas.
[i]
Canção popular revolucionária moçambicana.
Referencia bibliográfica
Oliveira, Inês Barbosa de. Narrativas: outros conhecimentos outras formas
de expressão

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